Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim, não me valeu.
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!
O resto é seu.
Trocando em miúdos, pode guardar,
As sobras de tudo que chamam lar,
As sombras de tudo que fomos nós,
As marcas de amor nos nossos lençóis,
As nossas melhores lembranças.
Aquela esperança de tudo se ajeitar, pode esquecer!
Aquela aliança, você pode empenhar ou derreter.
Mas devo dizer que não vou lhe dar,
O enorme prazer de me ver chorar.
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago,
Meu peito tão dilacerado.
Aliás,
Aceite uma ajuda do seu futuro amor pro aluguel.
Devolva o Neruda que você me tomou, e nunca leu!
Eu bato o portão sem fazer alarde,
Eu levo a carteira de identidade.
Uma saideira, muita saudade
e a leve impressão de que já vou tarde.
(Francis Hime/Chico Buarque - 1978)
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&hl=en&v=hn4JyodL7K4&gl=US
sábado, 24 de julho de 2010
Chico de Hollanda, de aqui e de alhures.
"Parceiro de euforias e desventuras, amigo de todos os segundos, generosidade sistemática, silêncios eloquentes, palavras cirúrgicas, humor afiado, serenas firmezas, traquinas, as notas na polpa dos dedos, o verbo vadiando na ponta da língua - tudo à flor do coração, em carne viva... Cavalo de sambistas, alquimistas, menestréis, mundanas, olhos roucos, suspiros nômades, a alma à deriva, Chico Buarque não existe, é uma ficção - saibam.Inventado porque necessário, vital, sem o qual o Brasil seria mais pobre, estaria mais vazio, sem semana, sem tijolo, sem desenho, sem construção."
Ruy Guerra, cineasta e escritor, outubro de 1998.

Tudo tem um fim. E nós, como tudo na vida, chegamos ao nosso fim. Não posso fazer mais nada. Não quero fazer mais nada que me faça sofrer. Dei o que pude. Tirei a pele para te aquecer nos dias em que o frio te congelava o coração. Baixei as defesas para te fazer ganhar. Levei-te ao colo nas tuas mais importantes batalhas. Levantei-te de cada vez que caiste. Te estendie a mão quando erraste. Deixei-te entrar no meu mundo como mais ninguém entrou. Fui o teu porto de abrigo sempre que o mar dos teus sentimentos estava demasiado, revolto para te aventurares. Fui a tua âncora de todas as vezes que quiseste descansar. Estive sempre de braços abertos para ti. E o que é que fizeste com tudo isso?
www.fotolog.com/narizinhooow
sexta-feira, 23 de julho de 2010
À uma bailarina que não podia chorar.
Eu conheci uma dançarina. Foi em uma das minhas aventuras, não me lembro bem como foi. Dançamos juntos por um tempo, meus passos lentos e modestos de nada valiam. A dançarina me encantou. Tinha os cabelos negros e ondulados, que não paravam quietos. Trocavam de posição após cada passo. A dançarina me encantou.
A encontrei pela ultima vez em um grande baile, conheci várias pessoas nesse dia. A bailarina tinha grandes amigas, que nunca lhe deixavam só.
Ela ria não só com a face. Gargalhavam todas juntas, às vezes por minutos, sem cessar. O seu sorriso me deixava feliz, então o guardei na memória. Assim como a guardei.
Um bom tempo depois, voltei ao baile. Não encontrei a bailarina. Me contaram que ela não podia mais dançar, que estava triste, e não tinha mais aparecido no baile. Custei a acreditar.
Pedi seu número – suas amigas me deram receosas- demorei dois ou três dias para ligar, não sabia o que falar,nem se ela lembrava de mim. Mas eu liguei. Acho que ela chorava, sua voz estava estranha.- ela lembrou de mim- mas isso não a deixou menos triste. Conversamos por um tempo, não sei com que direito e com que intimidade a pedi pra não chorar mais. Era um momento difícil para ela. Não podia fazer o que mais amava. Era como um pássaro que não pudesse voar. Mas mesmo assim, eu pedi. Ela concordou. Creio que chorou após o telefonema. Mas acho que lembrava do acordo, ela não podia chorar. Pelo menos assim eu pensava. Acho que funcionou. Um dia ela me disse que estava feliz. Me senti feliz. Senti saudade da dançarina.
Dias depois, voltei a ligar. Ela não atendeu. Voltei a ligar ela não atendeu. Confesso que quase chorei. Logo peguei minha viola, como de costume. Abri a janela do quarto, a lua estava cheia, o céu todo claro. Toquei quatro ou cinco músicas; meu curto repertório estava no fim. Me lembrei da primeira música que aprendi a tocar; a toquei. Falava sobre desejo. Eu desejava tanta coisa. Na última nota da canção uma estrela cadente risca o céu. Não pensei duas vezes antes de lhe pedir algo. Nunca acreditei nestes misticismos, mas eu precisava acreditar. Pedi por ela. Sim, Por ela. Pedi pra que voltasse à rir e a dançar.
No outro dia voltei a ligar, outra pessoa atendeu, ela tinha ido ao baile. Me arrumei rapidamente e fui ao baile.
Ela estava lá. Dançando, rindo, com toda a alegria do mundo. Como nunca tinha feito. Não fui em sua direção, apenas sentei e observei. Ela não cansava. Seu sapato cansou, ela o tirou, e continuou a dançar. Até mesmo depois do baile se acabar.
Ela não me viu. Eu já tinha conseguido o que queria. Me apaixonei pela dançarina. Mas eu sabia que nunca mais a veria. Então fui até a janela novamente, precisava pedir mais uma vez às estrelas. Pedir para esquecê-la. Toquei a mesma canção por dezenas de vezes. O céu não se mexeu naquela noite. Nunca mais eu vi uma estrela igual aquela. Nem uma bailarina.
Por Thiago Fraga
http://linhascontadas.blogspot.com
A encontrei pela ultima vez em um grande baile, conheci várias pessoas nesse dia. A bailarina tinha grandes amigas, que nunca lhe deixavam só.
Ela ria não só com a face. Gargalhavam todas juntas, às vezes por minutos, sem cessar. O seu sorriso me deixava feliz, então o guardei na memória. Assim como a guardei.
Um bom tempo depois, voltei ao baile. Não encontrei a bailarina. Me contaram que ela não podia mais dançar, que estava triste, e não tinha mais aparecido no baile. Custei a acreditar.
Pedi seu número – suas amigas me deram receosas- demorei dois ou três dias para ligar, não sabia o que falar,nem se ela lembrava de mim. Mas eu liguei. Acho que ela chorava, sua voz estava estranha.- ela lembrou de mim- mas isso não a deixou menos triste. Conversamos por um tempo, não sei com que direito e com que intimidade a pedi pra não chorar mais. Era um momento difícil para ela. Não podia fazer o que mais amava. Era como um pássaro que não pudesse voar. Mas mesmo assim, eu pedi. Ela concordou. Creio que chorou após o telefonema. Mas acho que lembrava do acordo, ela não podia chorar. Pelo menos assim eu pensava. Acho que funcionou. Um dia ela me disse que estava feliz. Me senti feliz. Senti saudade da dançarina.
Dias depois, voltei a ligar. Ela não atendeu. Voltei a ligar ela não atendeu. Confesso que quase chorei. Logo peguei minha viola, como de costume. Abri a janela do quarto, a lua estava cheia, o céu todo claro. Toquei quatro ou cinco músicas; meu curto repertório estava no fim. Me lembrei da primeira música que aprendi a tocar; a toquei. Falava sobre desejo. Eu desejava tanta coisa. Na última nota da canção uma estrela cadente risca o céu. Não pensei duas vezes antes de lhe pedir algo. Nunca acreditei nestes misticismos, mas eu precisava acreditar. Pedi por ela. Sim, Por ela. Pedi pra que voltasse à rir e a dançar.
No outro dia voltei a ligar, outra pessoa atendeu, ela tinha ido ao baile. Me arrumei rapidamente e fui ao baile.
Ela estava lá. Dançando, rindo, com toda a alegria do mundo. Como nunca tinha feito. Não fui em sua direção, apenas sentei e observei. Ela não cansava. Seu sapato cansou, ela o tirou, e continuou a dançar. Até mesmo depois do baile se acabar.
Ela não me viu. Eu já tinha conseguido o que queria. Me apaixonei pela dançarina. Mas eu sabia que nunca mais a veria. Então fui até a janela novamente, precisava pedir mais uma vez às estrelas. Pedir para esquecê-la. Toquei a mesma canção por dezenas de vezes. O céu não se mexeu naquela noite. Nunca mais eu vi uma estrela igual aquela. Nem uma bailarina.
Por Thiago Fraga
http://linhascontadas.blogspot.com
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